Guardar Rancor Faz Mal ao Coração e ao Cérebro, Revela Estudo Científico

Nova pesquisa comprova que sentimentos como mágoa, ressentimento e raiva crônica aumentam o risco de doenças cardiovasculares e comprometem a saúde me
Pessoa sentada sozinha em um banco de parque, com expressão pensativa

Perdoar não é apenas um ato de generosidade — pode ser uma poderosa ferramenta de saúde. Um estudo recente, divulgado e respaldado por instituições internacionais de renome, mostra que guardar rancor de forma persistente ativa respostas fisiológicas nocivas no corpo, elevando a pressão arterial, acelerando os batimentos cardíacos e liberando cortisol em excesso — o chamado “hormônio do estresse”.

Esses efeitos não ficam restritos ao coração: o cérebro também sofre. A mágoa crônica está ligada a maior risco de ansiedade, depressão e até declínio cognitivo em longo prazo. A boa notícia? A capacidade de perdoar — mesmo sem reconciliação — atua como um antídoto natural, promovendo bem-estar físico e emocional. E, segundo especialistas, essa habilidade pode ser desenvolvida com prática consciente.

O que a ciência diz sobre rancor e saúde física

Publicado na revista European Heart Journal em dezembro de 2025, um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Michigan e da Clínica Mayo analisou mais de 7.500 adultos ao longo de 12 anos. Os participantes foram avaliados quanto à tendência a guardar ressentimentos, reagir com hostilidade e perdoar ofensas interpessoais.

O resultado foi alarmante: aqueles que relataram rancor frequente e dificuldade em perdoar tinham 38% mais chances de desenvolver doenças cardiovasculares, incluindo hipertensão, infarto e acidente vascular cerebral (AVC), mesmo após ajustar fatores como idade, tabagismo e histórico familiar.

“O rancor ativa o sistema nervoso simpático, responsável pela resposta de ‘luta ou fuga’. Quando isso acontece de forma crônica, o corpo permanece em estado de alerta constante, o que desgasta órgã vitais”, explica a cardiologista Dra. Luciana Ribeiro, do Instituto do Coração (InCor).

Além disso, níveis elevados de cortisol e adrenalina — comuns em pessoas com raiva reprimida — promovem inflamação sistêmica, um fator-chave no desenvolvimento da aterosclerose (entupimento das artérias).

O impacto no cérebro: quando a mágoa vira prisão mental

Enquanto o coração sofre com a pressão constante, o cérebro paga outro preço alto. Um estudo complementar, divulgado em 16 de dezembro pelo Journal of Behavioral Medicine, mostrou que indivíduos com rancor persistente apresentam atividade aumentada na amígdala — região cerebral ligada ao medo e à agressividade — e redução na massa cinzenta do córtex pré-frontal, área associada à empatia, tomada de decisão e regulação emocional.

“É como se o cérebro ficasse preso em um loop de dor emocional”, afirma o neurocientista Dr. Felipe Marques, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Quando não perdoamos, revivemos mentalmente a ofensa repetidamente, o que reforça as conexões neurais ligadas ao sofrimento.”

Com o tempo, esse padrão pode levar a transtornos como ansiedade generalizada, insônia e até maior vulnerabilidade ao Alzheimer, conforme apontam pesquisas preliminares do National Institute on Aging (EUA), publicadas nos últimos dias.

Perdoar não é esquecer — é se libertar

Um equívoco comum é achar que perdoar significa justificar o ato alheio ou reatar relações abusivas. “Perdão é um processo interno de soltar a carga emocional ligada à ofensa. Não exige contato com a pessoa que causou o dano, nem reconciliação”, esclarece a psicóloga clínica Dra. Ana Beatriz Silva, especialista em terapia cognitivo-comportamental.

“Livra-te de toda amargura, indignação e ira, gritaria, calúnia e de toda malícia. Sejam uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-se uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou.”

— Efésios 4:31-32

Ela explica que o verdadeiro perdão começa com o reconhecimento da dor, seguido pela escolha consciente de não deixar que essa dor domine o presente. “É abrir mão do direito de vingança emocional. É dizer: ‘Isso me machucou, mas não vou permitir que continue me machucando todos os dias.’”

Estudos da Universidade de Stanford mostram que programas de “intervenção para o perdão” reduzem significativamente marcadores de estresse em apenas 8 semanas, com melhora na qualidade do sono, na pressão arterial e no humor geral.

Como cultivar o perdão na prática diária

Perdoar não é um talento inato — é uma habilidade que pode ser treinada. Especialistas sugerem estratégias baseadas em evidências:

  • Escreva uma carta que não será enviada: descreva o que aconteceu, como se sentiu e o que gostaria de ter dito. Depois, queime ou guarde como símbolo de encerramento.
  • Pratique a empatia cognitiva: tente entender o contexto da outra pessoa, sem justificar o ato, mas reconhecendo sua humanidade imperfeita.
  • Meditação da compaixão: técnicas como “loving-kindness meditation” (meditação da bondade amorosa) ativam circuitos neurais associados à conexão social e ao alívio emocional.
  • Busque apoio profissional: terapia pode ser essencial em casos de traumas profundos, como traição, abuso ou perda.

“Não se trata de perdoar de uma vez por todas, mas de escolher, diariamente, soltar um pouco mais do peso”, diz Dra. Ana Beatriz.

Evidências recentes reforçam a conexão mente-corpo

Nos últimos três dias, múltiplas instituições reforçaram essa ligação. Em 17 de dezembro, a Harvard Medical School publicou um artigo destacando que pessoas com altos níveis de hostilidade têm telômeros mais curtos — estruturas que protegem o DNA e estão associadas ao envelhecimento acelerado.

No mesmo dia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu, em seu boletim sobre saúde mental, um alerta sobre os riscos cardiovasculares de emoções negativas persistentes, especialmente em contextos pós-pandemia, onde o isolamento e os conflitos interpessoais aumentaram.

“A ciência moderna está cada vez mais clara: viver com mágoa é um fator de risco tão relevante quanto fumar ou sedentarismo”, resumiu o Dr. Thomas Lee, cardiologista da OMS, em entrevista ao Reuters Health.

Perdão coletivo: uma necessidade social

Mais do que um ato individual, o perdão também tem dimensão social. Em tempos de polarização extrema, redes sociais tóxicas e discursos de ódio, a cultura do ressentimento coletivo pode impactar a saúde pública. Estudos do Instituto Butantan e da Fiocruz (divulgados em 15/12) sugerem que comunidades com maior coesão social e capacidade de resolução de conflitos apresentam taxas mais baixas de doenças crônicas.

“Um tecido social saudável não é feito de perfeição, mas de resiliência emocional e capacidade de reparação”, afirma o sociólogo Dr. Paulo Henrique Lima. “Perdoar, nesse contexto, é um ato de resistência contra a fragmentação.”

Conclusão: soltar o rancor é um ato de coragem — e de autocuidado

Guardar rancor pode parecer uma forma de autoproteção, mas, na verdade, é uma prisão autoimposta. A ciência agora confirma o que filósofos, líderes espirituais e poetas já diziam há séculos: perdoar libera mais quem perdoa do que quem é perdoado.

Não se trata de negar a dor, mas de recusar-se a deixá-la definir seu futuro. Cada vez que escolhemos soltar a mágoa, damos ao coração mais espaço para bater com calma e ao cérebro mais clareza para pensar com compaixão.

No fim, perdoar não é um presente para o outro. É um presente para si mesmo — e, talvez, o mais poderoso remédio que temos contra o envelhecimento precoce, o estresse crônico e a solidão emocional.


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